”Pensas mesmo que a Lua não está lá quando não estás a olhar para ela?” - Albert Einstein
A menina dos olhos* (para a Estelle Valente)
Registar é observar, observar é medir, medir é interpretar. E interpretar é interferir.

A realidade é composta por uma sucessão de gestos, luz, ondas de probabilidades e histórias mínimas, entrelaçadas até ao infinito por entre os nano-segundos que passam despercebidos à nossa consciência apressada e unidireccional. Ou talvez não seja bem assim. Na verdade, neste preciso momento em que me proponho descrever essa realidade, ela já deixou de corresponder ao que “é” ou “podia ser”. Em bom rigor, nada pode ser dito. O mero acto de observar provoca algo a que os físicos chamam de “colapso da função de onda”: muito embora antes da medição - e observar é medir - o estado do sistema a que chamamos realidade permitisse muitas possibilidades, apenas uma delas é escolhida aleatoriamente pelo processo de medição. E a função de onda modifica-se instantaneamente para reflectir essa escolha. A pergunta que se impõe fazer é simples: faz sentido especular para além do que pode ser medido?
A intuição diz-nos – ou assim nos faz querer acreditar – que existe um “sítio” onde os olhos não chegam e, tal como aqui se demonstra, as palavras de nada servem.
Tomemos como certa essa intuição, em prol deste texto, e a existência de um tal “sítio” onde habitam momentos que escapam ao espectro linear da existência que justificamos enquanto observadores – e no qual existimos como meros súbditos da percepção e da sua férrea guarda pessoal: a consciência.
Acreditemos, também, que esses momentos imperceptíveis são compostos por narrativas próprias, sem espaço nem tempo que as definam, apenas alcançáveis (i.e. susceptíveis de ser medidas)dentro de espaços infinitos criados pelo observador para esse efeito, como se de um novo sentido se tratasse. Um sentido sem qualquer limitação de unidade, capaz de conter todas as probabilidades. Só assim, em teoria, seria possível registar tais momentos.
A questão fulcral mantém-se, porém: saber se o momento registado já lá estava antes de ser registado e se, uma vez registado, assume as mesmas qualidades e possibilidades. 
Ora, para conseguir registar esse momento na sua pura essência, o observador que se desloca nessa dimensão tem de ter a habilidade de desaparecer, ou seja, de não ser observador. É aqui, no impossível, no paradoxo angular da linguagem e da interpretação, que começa o poema, ele próprio enquanto manifestação impossível do impossível através da linguagem – seja qual for a forma de linguagem. E é aqui que começa a arte da Estelle Valente. A fotografia – tal como a escrita, o cinema, a música ou mesmo a análise de fenómenos de física quântica – é uma linguagem que, como todas as linguagens, tem uma expressão prosaica e uma expressão poética. A fotografia da Estelle Valente é um dos melhores exemplos possíveis – diria mesmo impossíveis – desta expressão: não é concebível falar da sua fotografia sem primeiro perceber que são poemas. E que cada um desses poemas é o espaço infinito criado pelo observador, é a transparência que a lente da prosa não alcança. Numa abordagem lógica e cronológica, pode dizer-se que:
o poema é a lente
a lente não existe
tudo o resto é verdade
aumentada
e esculpida pelos artifícios do talento
A Estelle tem a capacidade – ou o encantamento – de perceber como a luz se comporta, de entender os seus caprichos, a sua personalidade, de distinguir a sua sombra da simples escuridão, do que ela quer revelar e fazer sentir. E também de nos mostrar, sem estar presente, o que ela – Estelle Valente – sente nesse preciso momento.
Suspeito muitas vezes que essa luz que nos envolve e devolve à certeza sincera das emoções emana, em grande parte, da sua (não) presença. O resultado, seja ele alegre ou triste, doce, glamoroso ou cru, é avassalador: o espírito é captado como existe no mundo – poderoso, eterno e nu. E de outra forma invisível.
A Estelle tem o poder de enfeitiçar em segredo as pessoas que fotografa e captá-las dentro da sua luz própria, que tantas vezes se esvaece e confunde com a luz exterior. Discreta, autêntica e certeira, consegue disparar no preciso momento em que ambas as luzes se acendem e encontram, numa dança cósmica, quando o resto do mundo está alheado da sua existência íntima. É essa, para mim, a assinatura indelével do trabalho da Estelle: captar esta realidade quando ninguém está a ver, muitas vezes nem sequer a própria pessoa fotografada.
O seu registo, em vez de fixar, fechar, transforma-se numa porta aberta para outra dimensão, onde são contadas todas as histórias – presente, passadas, futuras – que se entrelaçam para construir aquele momento. E o paradoxo do espaço/tempo/movimento torna-se uno com esse momento que é “agarrado” sem interferência. Apenas a sua intensidade é amplificada, para ser visível aos nossos olhos num espaço impossível que parece mostrar o que já era antes de ser e que só se inventava quando ninguém estava a ver. No fundo, é como se o observador nunca tivesse existido. Porque, ao desaparecer, o observador nega a procura da imagem e o momento é captado como se de uma respiração se tratasse, como se essa respiração, invisível, ganhasse vida própria para além – ou aquém – do tempo que a guarda.
A sua dádiva é a pureza da verdade sem intermediários. Tal como o cinzel do escultor desaparece depois de descoberta a escultura, a Estelle Valente tem o dom de desaparecer no caminho de regresso da realidade descoberta pela sua lente. É nesse caminho que surge o seu talento, a sua criação – a escultura já lá estava, o escultor apenas retira o que não faz parte dela, incluindo a si próprio, no fim. O acto de observação desaparece para dar lugar ao acto de criação artística, enquanto forma de desvendar e organizar a realidade.
No fim, tudo e todos são ela e tudo é verdade ao mesmo tempo. O elemento de conexão que liga a percepção do momento à sua concepção é uma declaração de amor e luz – milhares de declarações de amor e luz. Então, a complexa teia de emoções e significados do momento primordial torna-se tangível, sem perder as suas qualidades e probabilidades iniciais. Sem perder nenhuma das suas histórias.Esse momento primordial apenas se transforma, na sua forma, em matéria-prima acessível aos nossos sentidos. Ou seja, quando assimilamos esta realidade através da sua fotografia, a Estelle Valente é, literal e figurativamente, a menina dos nossos olhos.
A imobilização da realidade captada é aparente: ela move-se num exercício silencioso que nos diz tudo sem uma palavra. E não é preciso dizer nada. Nada pode ser dito. Pelo que apenas me resta fazer duas coisas: entrar neste olhar;
e não o fechar numa última frase
José Anjos
*Menina dos olhos, ou Pupila  (termo oriundo do latim, pupilla - menininha),  é a parte do olho que está situada entre a córnea e o cristalino, no centro da íris, como um orifício de diâmetro regulável, responsável pela passagem da luz do meio exterior até os órgãos sensoriais da retina. Localiza-se na parte média do olho, ou úvea, e tem por função regular a quantidade de luz que passa para a retina.
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